O povo de Deus tem a necessidade de sinais visíveis na liturgia

"A liturgia bem celebrada nos preenche de alguma coisa que não identificamos, alguma coisa do céu."

Estou eu, junto com outro coroinha, abandando o carvão no lado de fora da igreja, fazendo o fogo pegar, era tempo da Páscoa, tempo litúrgico mais importante. Solenidade. Quando passa um fiel por nós e questiona:

“Fogo?! Mas é alguma solenidade?!? Que dia é hoje?”.

Eu calmamente respondo:

“Sim, é Páscoa.”

Depois de mais alguns minutos, chega mais uma pessoa. Alguém que deveria ter uma boa carga litúrgica, mas mesmo assim me faz a pergunta:

“Minha filha, está fazendo fogo? Mas para quê?”

Eu respondo com a maior caridade que consegui encontrar:

“Ora, mas é Páscoa!”

Recebo uma resposta digna de desistir de servir na liturgia:

“Hahaha! Minha filha, a Páscoa já passou! Já faz duas semanas! Hahaha!”

Fico entristecida por o que ouvi, enquanto que a pessoa se afasta fazendo sinal com a mão de que o que eu estava fazendo era besteira e desnecessário.   

Desde que comecei a estudar mais profundamente a liturgia e organizar os atos litúrgicos da paróquia, fui percebendo que as pessoas têm preguiça de fazer as coisas. Tem preguiça de acolitar, de celebrar, de servir. Têm preguiça da liturgia. Tudo o que é facultativo é desnecessário, “não precisa não”, é o que dizem.

De fato, o missal permite que algumas realidades sejam facultativas. Mas olha, ele fala isso para aquelas comunidades que não têm como dispor de todas as coisas necessárias para os atos litúrgicos. Aquelas comunidades desprovidas de recursos financeiros, ou desprovidas de pessoas para ajudar o padre. Eu imagino que essas comunidades devem inclusive desejar muito ter uma liturgia muito mais digna, enquanto que nas paróquias cheias de acólitos, paramentos e objetos litúrgicos, celebrantes com disposição e saúde, faz-se apenas o necessário.

Em solenidades deve-se usar a oração eucarística I? “não, é muito grande... marca a II mesmo que é curtinha.”

Há tradição de velar as imagens na quaresma? “Mas não precisa não... Dá um trabalho...”

Turíbulo no domingo, dia do Senhor? “Deixa para usar só quando for obrigatório mesmo, fica um cheiro forte na igreja...”

Seis velas no altar? “Só duas basta.”

Cânticos em latim? “Tá em que século, menina?”

Somos preguiçosos para dar ao Senhor o que Ele merece. Mas a liturgia faz com que o povo tenha contato com o próprio Deus. Ela não é um show privado que eu posso decidir o que faço e o que deixo de fazer de acordo com o meu bem estar. E o que ajuda o povo a ter contato com Deus são os sinais visíveis da liturgia.

Um fiel logo perceberá que domingo é um dia especial e diferente dos de semana se o turíbulo for usado, se tiverem mais velas sobre o altar, se as lanternas forem usadas na procissão, se o evangelho for proclamado do evangeliário, se o diácono usar uma dalmática por cima da estola. Essas pequenas coisas são perceptíveis por quem não entende de liturgia, e ajuda a ter entendimento sensível do que te leva ao céu.

Temos saudade disso, da piedade na Santa Missa. Quando vemos uma liturgia bem celebrada, sem muitos acessórios do homem, saímos preenchidos, preenchidos do céu, de esperança; a liturgia nos eleva até o céu, independentemente de ser bem celebrada ou não. Mas se eu posso oferecer o melhor para o meu Deus, se eu POSSO, vou escolher não fazer?


Rafaela Carnauba
Católica, batizada, crismada e consagrada a Jesus pelas mãos de Maria. É vocacionada da Comunidade Católica Shalom. Além de ser estudante de Odontologia da Universidade Federal de Alagoas.

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