Porque sou cristão!






Eu não era cristão, muito menos – evidentemente – católico. Converti-me depois de uma longa caminhada de estudos e acontecimentos que jamais poderiam ser encarados, pelo mecanismo da lógica e da razão, como coincidências. Um dia, quem sabe, nesta coluna os detalharei. Todavia, o fato que sempre me chamou a atenção é a falsa oposição que, diante do secularismo que vivenciamos, fazem entre a razão e a Fé. É de uma completa ignorância. Quando ateu, sempre enxerguei Deus como uma hipótese inteligente em função de discussões presentes em filósofos como Leibniz. O próprio evangelho tem um sentido filosófico amplo para um mundo que despreza a metafísica e se apaixona pelo martelo de Nietzsche que apregoa a morte de Deus na cruz pesada do niilismo. Uma cruz que simboliza apenas a morte e fica à beira de um absurdo existencial.

Gottfried Wilhelm Von Leibniz nos diz que a razão humana deve ser separada da faculdade de raciocinar para que assim possa a segunda ser ferramenta da primeira na condução de sua boa utilização evitando o mal. Assim, raciocinar nos leva a reflexões contemplativas na busca pela verdade. Leibniz chama de “o encadeamento das verdades” que só pode produzir verdades não podendo uma delas ser contrária a outra. Ele retoma – propositadamente ou não – a filosofia de Aristóteles, que serviu de base para o tomismo. E aqui, Santo Tomás de Aquino não se faz maior por apresentar Deus em sentido filosófico, mas por ir além do argumento ontológico para – por meio das cinco vias – racionalizar a hipótese (para mim, verdade) inteligentíssima sem contrariar a revelação. 

Logo, razão está a serviço da revelação, pois o Deus exposto filosoficamente reforça a Fé diante das provas de sua existência.

É que – como diz Leibniz - “há dois labirintos do espírito humano: um respeita à composição do contínuo, o outro à natureza da liberdade; e ambos têm origem no mesmo infinito.” Não temos como evitar esta jornada na busca por sentido; e ela nos leva a labirintos onde somos expostos às nossas fraquezas, a concupiscência e o mal. Ao respeitarmos a composição do contínuo, mesmo diante da liberdade que nos é concedida, enxergaremos que há um sentido nesta composição. Aquino o revela em suas vias. Primeiro na ideia de que há um motor que tudo move – em ato contínuo – sem ser movido. Não nos deparamos com sua face, mas pela arquitetura do universo, eis o Amor de Deus. Para Leibniz, não éramos folhas em branco na busca de entender o mundo.

Isto nos leva a “causa eficiente” de Aquino. No mundo – dizia o Doutor Angélico – a razão nos leva a enxergar que tudo tem uma causa eficiente, mas nada pode ser a causa eficiente de si mesmo, e como não podemos proceder até o infinito na busca pelas causas eficientes das coisas, há uma causa primeira que é Deus. Não há folha em branco. Se aliarmos isto a noção do governo das coisas e/ou finalidade do ser, veremos que o ser humano aponta para uma busca de verdade e sentido, busca uma religação. Por isto, como é posto logo no início do Catecismo Católico, sempre houve um pensamento religioso na humanidade mesmo quando não cristão. É de se acreditar numa coincidência impossível que, na caminhada de busca por sentido, a razão sempre se depare com algo para além dela, por se entender contingente e fruto de algo que a cria.

Então, caros amigos, no mundo as coisas operam em busca de um fim (finalidade do ser), há uma força necessária a gerar tudo que é contingente que – pela natureza da consciência criada – deverá ser mais inteligente que a própria consciência que cria. Ou é isto, ou acreditaremos que toda coisa criada, em um mecanismo lógico ao ponto da ciência definir leis para explicar a realidade, surge do nada. É uma possibilidade abraçada por alguns. Não por mim.

Todavia, qual é a mais inteligente: o resultado surgir do nada mesmo havendo uma equação que o cerca, ou existir algo para além de nós que cria o que vemos e admiramos justamente por sua arquitetura posta, como por exemplo, a dinâmica do universo, a origem da vida, a leis da física, o princípio entrópico e por aí vai... como dizer que a Fé é cega (no sentido de irracional)?

O estudo do tomismo me fez ver isto. Mas não foi com ele que veio a Fé. Ele apenas apresentou uma hipótese filosófica que aqui resumo de forma até imperfeita. O fato é que Santo Tomás de Aquino diz mais sobre o mundo, à luz da razão, que qualquer niilista. Daí há – evidentemente – um salto de Fé. Pois, a revelação não depende da razão ainda que possa ser contemplada por ela. Deus se revelou. Logo, só depende/dependeu Dele. Nisto sempre há de existir mistérios insondáveis à razão humana. 
Todavia, a Fé não é cega. Afinal, associada à filosofia de Aquino estão todos os testemunhos, evidências, milagres, profecias, e a própria História de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Igreja.

O estudo profundo de cada um desses elementos nos leva a uma compreensão maior. Saímos de um Deus em sentido filosófico para a compreensão de um Deus cristão. É isto que militantes ateus como Richard Dawkins não levam em conta. Dawkins cria um Deus em que nivela religiões e compreensões, despreza a metafísica e a filosofia para atacar um “deus” que de fato não existe. O “deus” que Dawkins atribui aos cristãos não é o Deus no qual os cristãos acreditam. A revelação que nos é concedida não é dissociada da razão, mas busca sempre – por meio do exercício desta – uma cosmovisão na qual se apóia, inclusive, a dogmática. Sim, são revelações, mas o que está posto é compreensível. Falarei mais sobre isto em textos vindouros.

Quem se dedicar à leitura do Catecismo da Igreja Católica verá que um dos primeiros questionamentos presentes é “O que significa crer?”. Ali, a busca é por uma resposta precisa que não abandona a reflexão. “A fé é a resposta do homem a Deus que se revela e a ele se doa, trazendo ao mesmo tempo uma luz superabundante ao homem em busca do sentido último de sua vida”. Ora, qual existência não traz em si tal questionamento? A resposta que será dada a ele é outra história. A resposta da Igreja, que é o que percebi ao longo dos estudos, traz uma verdade: o sentido está impresso no homem, escrito no homem...é o que Leibniz colocava ao dizer que “não somos folhas em branco”. Afinal, como diz a Igreja o homem não cessa de procurar a verdade e a felicidade. Aristóteles também disse isto em seus escritos e por isto a importância da metafísica que muitos teimam em assassinar por meio do relativismo.

Aristóteles não era cristão!

A Igreja – entretanto – nos convida a pensar em vias e nos apresenta a proposta ao pensar no mundo “a partir do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo (trecho do Catecismo), que condiz com que expõe São Paulo: “o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles (os pagãos), pois Deus lho revelou”. Não por acaso, é citado Santo Agostinho: "Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar que se dilata e se difunde, interroga a beleza do céu... interroga todas estas realidades. Todas elas te respondem: olha-nos, somos belas. Sua beleza é um hino de louvor (confessio). Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo (Pulcher, pronuncie "púlquer"), não sujeito à mudança?".

Ora, tal ordenamento se depara com a nossa liberdade de questionar a existência do Ordenador. Nossa razão nos leva a isto independente de crermos ou não. Diante de tal ordenamento, o trabalho de Aquino foi mostrar as vias que desnudam – já que nossa razão compreende a relação entre criatura e criador – uma causa primeira que também é fim último. A isto damos o nome de Deus. O salto para a Fé é compreender como o Criador pode ser pessoal. Eis aqui a História, meus amigos, e a assinatura de Deus no contínuo. Para negar isto precisamos negar que ele se revelou no meio de nós com o que antecedeu Cristo e com o que O sucedeu. Leiam, por exemplo, o que é posto na aparição de Nossa Senhora de La Sallete. O relato preciso – desde as guerras aos péssimos livros que abundarão o mundo – de forma transcendente será ignorado mesmo tendo acertado de forma cirúrgica as cores da pintura do mundo no qual estamos hoje? Eu não consigo ignorar isto.


 Difícil colocar todas as evidências e falar sobre revelação em um único artigo, mas nossa caminhada aqui tende a ser longa. Outros textos virão. Que Nosso Senhor Jesus Cristo abençoe a todos vocês e me ajude neste compromisso que assumi, pois se aqui estou devo a Ele e meu compromisso é com esta VERDADE.

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.